Elocubrar é a variante de lucubrar, compor uma obra com esforço, a custa de muita meditação. Literatura que se faz espremendo o cérebro. (O Autor)-------O Bom humor é a medida absoluta da inteligência do ser humano. (Nietzsche).

Elocubrações

sentir-se no paraiso

…Noite bonita, saí do estádio e fui para casa, um sorriso que insistia em ficar. Lembrar do jogo, me fazia dar risadas. Os gols, os abraços nos amigos do momento, estes caras que eu nunca vi mas unidos por um breve momento era como se fossemos irmãos. A Lua brilha lá em cima, mas ela esta no meu coração agora, felicidade de ver o time ganhar. Caminho para casa, sem pressa de chegar. O momento tem que ser curtido, apreciado. Noite bonita, lua brilhando e o sorriso que insiste em ficar. Vou pra casa, tem gente me esperando lá. Mas as lembraças do jogo continuam, a cabeça cheia de todos os momentos do jogo. Quanto tempo será que vai durar essas lembraças? Me pergunto. Estranha a minha pergunta, elas vão durar para sempre! Afinal o jogo foi maravilhoso, uma copa do mundo! Talvez mais importante do que isso. Essas lembraças serão passadas para as minhas gerações futuras! Essa camisa eu vou guardar dentro de um quadro, junto com a minha paixão pelo time! Vontade de gritar!!! "É Campeão!!! Meu Deus!!! É Campeão!!!" Outro respondem amistosamente, outros não. Não importa. Estão me esperando em casa. Mas aquele passe para o segundo gol foi demais!! Esse técnico já é um imortal. Espero que não olhem muito pra ele. Ele tem que ficar no time. E mais fogos explodem, mas gente grita das janelas, buzinas, o hino do time, a paixão esta no ar. Mas, tem gente me esperando em casa. O portão do prédio se abre, entro. O porteiro faz uma festa danada! Vem me abraçar e eu o abraço. Vejo lágrimas em seus olhos! Felicidade! Como pode? "Tem gente me esperando em casa!" O elevador já esta embaixo. Abro a porta de casa e ela me abraça e um beijo mais apaixonado do que de comemoração. Um beijo que diz tudo. "Já vou. Vou ver o Bebê." Lá esta ele dormindo, um sono solto e tranquilo de criança. Me vi nele. Não consigo deixar de sorrir. O barulho dos fogos se foram. A gritaria acabou. Esqueci alguma coisa. Não sei. Não importa. Mas me vejo nele. A única coisa que ouço é a sua respiração e a voz dela me chamando. Deixo a porta entre-aberta. "Viu o pijaminha"? Ela pergunta. "Vi. Lindo"! Só vi o rostinho dele. "Comprei pra comemorar. Deu sorte." - Ela disse. Comemorar? Esqueci. Estava pensando nela e nele. Minha familia. Mas o que importa agora é ela. A noite continua e sempre vai continuar. Não importa o que aconteça lá fora.

A Tequila

A tequila

(Às três horas da manhã numa calçada de boteco, onde os garçons sonolentos pedem com olhos inclementes a saída dos últimos clientes. Dois bêbados com olhos embotados num universo único aparte da lua que os ilumina. Somente um tem condições de fala e somente outro tem condições de ouvir.)

Sim a tequila.

Depois de algumas doses que eu não me lembro quantas. As coisas me parecem diferentes. Um tom amarelado, como se a luz da rua já não o tivesse. Mas esse amarelado ficou mais perceptivo, talvez, a matiz do olho tenha realçado. O que é matiz?

(o escutador dá de ombro.)

A tequila me faz viajar. Num momento desses, é justamente do que preciso.

Ela botou um ponto final. Não colocou, não! Ela botou o ponto final. Da mesma maneira que as galinhas colocam ovo. Ou melhor, botam ovos. Ela botou o ponto final!

Ela agachou. Ela arregaçou a saia e botou o ponto final!

(pausa)

Não que Angélica fosse uma galinha, no sentido pejorativo da palavra. Mas, quando é que a palavra galinha é pejorativa? É um bicho gostoso de se comer. Desde a galinha cabidela à canja. Já frango xadrez é com os gringos chineses... e lá vou eu nas minhas viagens.

(Um trago)

Voltando ao assunto principal. Angélica não era uma galinha não! A gente fazia amor. Nós fazíamos sim. (suspiro)

Difícil de explicar. Como se explicar o fazer amor? Nem a própria palavra é simples. É uma palavra composta. Sendo que toda palavra composta tem um significado dúbio. No sentido da ambigüidade, talvez seja também no sentido da dualidade, mas acho que a tequila neste caso me fez viajar além da conta, então voltemos ao assunto original. O ponto final que ela botou.

(Remexe com as mãos acima da cabeça)

Nós fazíamos amor. A amplitude disto é indefinível. Quando se identifica o "fazer amor", quer dizer que se chegou ao nirvana. Talvez.

Os hindus estavam certos, com seus kama sutras e suas orgias. Mas eu e a Angélica fazíamos amor. Ela também sabia disso. Ela que veio com esse papo de que nós fazíamos amor, eu sempre pensei que fosse uma foda boa. Aliás...das melhores! Era muito bom! Porra! Se era!

Ela "fazia amor" e eu era uma foda boa...

Posições. Movimentos. Cheiros. Pelos...

Depois que se percebe que a foda boa é mais do que uma foda boa e não se tem como definir. Você sabe. Nós homens somos de ficar definindo as coisas. Aí não tem jeito nos rendemos à definição delas, o "fazer amor".

Foi neste momento. Neste exato momento que ela botou o ponto final.

Tinha que botar um ponto final bem no meio da festa? Bem no meio do amor?Nós nos amávamos. Era o paraíso! A conjunção carnal completa!

E me vem essa mulher e bota um ponto final!

(Chora.)

Ela bem que podia esperar que a coisa azedasse para ambos os lados. Aí faríamos um acordo de cavalheiros. Sairíamos da relação sem que o outro caísse do barco e afundasse nas águas turvas e lamacentas da dor-de-cotovelo.

Era eu ou ela. Um duelo de caubóis. Uma disputa entre o bandido e o mocinho, policia e ladrão, aliados versus eixo, alguém sempre tem que morrer. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Essa disputa entre o homem e a mulher é injusta. Por isso que às vezes eu acho que os muçulmanos têm razão, na verdade eles não são atrasados como agente pensa. Quando exigem que as mulheres se vistam daquela maneira, querem somente proteção contra elas. Na verdade eles são muito avançados sentimentalmente, porque já tiveram muitas que botaram os pontos-finais.

(Balança com a cabeça afirmativamente.)

Já. Já pensei em me mudar para o oriente médio. Mas, como viver sem um biquíni? Como viver sem a saia? O shorts, vestidos, vestidinhos?

A Angélica gostava de vestidinhos florais. Combinava com aqueles cabelos escuros e curtos ao estilo channel. Angelical demais. Caí feito um patinho nas garras afiadas daquela gata.

Aí vem ela e bota o ponto final! Eu com cara de ponto final. Vai demorar para tirar essa cara.

Quem sabe a tequila me reconforte até o meu fígado pedir arrego. Um ótimo purgante para o coração e para o ex "fazer amor".

(Levanta o braço para chamar o garçom sonolento.)

Vai mais uma dose aqui...

  • Posted: Wednesday, 2 December 2009 13:15:48 GMT
  • In: Elocubrações
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Os Sapatos

Os Sapatos

Sejam scarpins, sapatilhas, tamancos, simples sandálias. Abertos ou fechados. Rasteirinhas, chinelos, plataformas, mesmo os tênis. Botas, cano alto, cano baixo. Mas, sempre, sempre os de salto alto. Esses são imbatíveis!

Não adianta. Todos os meus relacionamentos amorosos se basearam inteiramente na combinação entre o sapato e a mulher. Não tinha jeito, eu olhava primeiro para a mulher e em seguida para o que ela calçava. Olhava sem nenhuma vergonha.

Eu forçava a não olhar para o sapato mas não dava se ela fosse interessante eu tinha que ver. Combinava. Ótimo! Caso contrário, até dava uma colher de chá. Tipo: se na terceira saída ela não acertasse com os sapatos eu a dispensava ali na hora.

Sapatos e mulheres são duas coisas indivisíveis. Já fiquei terrivelmente apaixonado por mulheres que conseguiam essa harmonização. Mas, acontecia de elas me dispensarem assim que percebiam a minha loucura. Algumas não, como foi o caso da Julia que me manipulou por um bom tempo.

O Sapato é o supra-sumo da feminilidade, é onde a mulher se coloca, se posiciona. É um altar ambulante da feminilidade. Já a mulher...bem, a mulher é a mulher.

Ela já é perfeita em toda a sua essência. O sapato serve justamente para isso. Expor a essência da mulher mesmo imperfeita esteticamente ela se transforma. Consegue usar e abusar de sua feminilidade. Vira uma deusa. Os sapatos quando combinados tem esse poder de trazer a feminilidade perdida, ou simplesmente torná-la Poderosa.

Não sei por que não fui sapateiro? Talvez devido a uma psicóloga que me indicou alguma profissão que não tivesse a ver com sapatos. Fui ser arquiteto. Sócio de uma empresa de desenhos arquitetônicos. Mas essa mania, esse fetiche, como a psicóloga gostava de chamar, nunca desapareceu. Diminuiu na faculdade, mas nunca desapareceu.

Outro dia contratamos uma arquiteta recém formada. Em seu primeiro dia veio de vestidinho vermelho de alcinha e um coturno. Um coturno? Já tinha visto essa aberração de combinação na rua, muito repulsivo. Quase falei pro Jorge, meu sócio, demití-la.

“Juba. Fica na tua! Vai tratar das suas neuras que eu trato da firma.”

Que cala-boca! Como sou idiota. Será que preciso voltar à minha analista? Ele tem razão. Essa minha mania deve ser muito chata com as mulheres. Coitada da Pamela. Ela era uma ótima pessoa. Podia ter dado certo, mas aquele chinelo de dedo com plataforma era uma batida de carros!

Apesar dos coturnos a menina era bem bonitinha, cabelos lisos e pretos, rosto fino, de narizinho arrebitado e o mais interessante, uma legítima falsa-magra. Ela insistia em usar o coturno e assim foi durante uma semana. Por um lado foi bom, pois comecei a não ligar. Mas na semana seguinte ela foi com uma sapatilhazinha de princesa, uma saia e blusinha que meu queixo caiu.

“Porra Juba! Se toca! Olha o assédio!”

“Desculpa Jorge. Não resisti. A menina esta um doce!”

“Cara! Você tem que se controlar mais. Os projetos estão atrasados.”

O Jorge tinha razão. Os projetos estavam atrasados e eu olhando para as pernas... Pés, cabeça, pescoço, cabelos, olhos, bunda e os sapatos da moça.

Acho que vou voltar a freqüentar minha psicanalista.

Pra quê? Até hoje ela não resolveu. Disse que era um complexo de Édipo mal resolvido. Mas e daí? Como é que se resolve? Acho que o mal dos psicólogos, psicanalistas e outros doidos é que eles não são tão objetivos em seus tratamentos como deveriam ser. Dane-se!

Evitei os sapatos, evitei a menina, evitei sair. Mesmo com um convite da Julia.

“Vamos sair Juba? Eu vou com aquela sandalinha que você tanto gosta.”

Tentador, mas... “Estou resfriado.”

“Tá juba. Então eu uso aquela bota de cano alto de saltos nas alturas só pra vocês. E com uma surpresa a mais depois!”

A Julia era sacana sabia exatamente onde me atingir, fiquei com ela um bom tempo. Me traiu. Foi difícil terminar. Manipulava-me do jeito que ela queria. Só em combinar os sapatos. Eu virava um joão-bobo. Fui forte e terminamos. Tempos depois ela voltava a me ligar usando e abusando dessa tática.

“Você está de sacanagem comigo Julia! Isso é um puta golpe baixo!”

Sai. Fazer o quê? A menina do escritório não saia da minha cabeça. Quem sabe a Julia a tirava.

Tirou por algumas horas. Cinco horas e meia para ser exato, entre um jantar e saber do que se tratava a surpresinha. Mas no dia seguinte ela estava lá. Bonitinha. Gostosinha. Super! Fingia que não a via, ia com óculos escuros, dizia que estava com conjuntivite.

Eis que um dia ela entra no escritório de sandálias de saltos altos toda produzida. Neste dia eu decidi. Eu a convidaria a um jantar. Não seria um assédio e simplesmente uma forma de reunião de empresa.

Ela recusou. Estava namorando. Minha cara caiu no chão. Nunca mais olhei para ela com segundas ou terceiras intenções. Daquele momento em diante a tratei como um homem ou como qualquer outro funcionário. Quase fui a minha psicanalista para ensinar como é um tratamento objetivo.

“Toma Juba! Ainda bem que ela não aceitou.”

“Por quê? É você o namorado dela?”

“Infelizmente não. Mas é que ela te deu um jeito.”

Os meses se passaram nossa empresa foi de vento em popa. Eu estava bem, não babava mais, não suspirava mais. Ainda apreciava os sapatos femininos. Mulheres passavam, mulheres vinham e eu ainda gostava de observar a menina do coturno. Era bonita não tinha como evitar.

Um dia numa reunião ela apareceu com um lindo scarpin delineando suas pernas, realçando suas ancas e soerguendo seus peitos. Estranhei esta recaída. A Julia não usava mais seus artifícios porque não surtia efeito. E agora aquilo? Babava no meio do escritório. Fiz das tripas coração, tirei leite de pedra! Não caí na tentação de xavecá-la. Nossa! Mas que gata que ela é!

O dia no escritório passou sem maiores contratempos, o problema é que era uma sexta feira e um “happy hour” estava marcado. Tinha de ir. Fomos nós os diretores que marcaram.

Lá estava ela, uma estrela brilhante. Dry Martini? Longe de mim. Um Mojito? Estou fora. Talvez uma cervejinha cairia bem. E assim, segurando de todos os lados o “Happy hour” passou. Estava pagando a conta quando ela senta ao meu lado cruza as pernas mostrando seu lindo scarpin combinando com pernas delineadas, saia curta e um busto empertigado. Suspirei profundamente. O papo foi rolando solto. Evitava olhar para as pernas dela e seu scarpin, quando por impulso, saiu não sei de onde. Perguntei:

“Onde foi que você comprou este scarpin?”

Ela estranhou a pergunta.

“Por que?”

“Eu achei bonito.”

“Obrigada.”

As mulheres sempre agradecem depois deste elogio. Embora eu esteja elogiando os sapatos e não ela. Isto prova que são duas entidades indivisíveis, os sapatos e a mulher.

“Vai comprar para alguém?”

“Não. Eu só queria saber.”

Ficamos sem assunto momentaneamente, nós dois olhando para os lados.

“Bom, já esta tarde. Preciso ir estou cansado.”

“Você esta de carro? Me dá uma carona?”

“E o namorado? Eu pensei que ia se encontrar com ele.”

“Terminamos a mais de um mês.”

E sentamos de novo na mesa para conversar mais. O papo continuou. Pessoa inteligente, brilhava os olhos. Ofereci a carona. Um beijo no meio de um sinal vermelho me fez desviar para meu apartamento. Descobri naquela noite que ela gostava de fazer com o seu scarpin ou com a sua bota de cano alto ou com sua sandália plataforma, gostava de todas as maneiras de todos os sapatos. Descobri que seu pé era lindo. Delicado. Feminino.

Casei com ela.

O Gavião e os dois meninos.

Fez a lição?

Mais ou menos.

Como assim?

É que eu não entendi direito o que a professora explicou. Você fez?

Não.

Xí! Ela vai dar bronca.

Bronca a mais, bronca a menos não vai fazer diferença.

Escola chata!

Muito.

Os meninos pararam como que encanto observando um pequeno gavião sair do topo de uma palmeira, parar no ar e cair como uma pedra no pasto. Saiu com uma cobrinha pendurada nas garras. Pousou num galho alto da araucária. Junto a ele apareceu outro gavião e dividiram a cobra.

Já saiu a lista da seleção?

Ainda não, mas o Pelé vai jogar.

Tomara.

Os dias passaram e todas as vezes que os meninos iam para a escola paravam naquele lugar para observarem os gaviões. As aves geralmente carregavam alguma presa, cobra, lagartixa, mas sempre os viam com ratos pendurados.

E o Chulé? Como é que vai?

Ele é muito engraçadinho, corre atrás da bola de meia e já estragou meu peão.

Minha mãe não deixa ter bicho em casa. Pedi um cachorrinho que nem o Chulé, ela nem quis saber. Arranjei um gatinho e ela disse que tinha alergia e que espirrava. Imagine gato dar espirro?

Lá em casa foi a mesma coisa, mas quando minha mãe viu o Chulé ela gostou. Meu pai deu uma força ele gosta de bicho

Os gaviões estavam construindo um ninho num galho alto da araucária. As paradas ficaram mais extensas, observavam a construção do ninho. Um dia perderam a aula e não os deixaram entrar na escola. Os dois receberam advertência por isso. Um deles recebeu uma surra em casa e o outro ficou de castigo por um mês.

Doeu?

Esta doendo até hoje, mas eu já estou acostumado. Meu pai não aceita eu ir mal na escola de jeito nenhum, quanto mais faltar a aula.

É mas você não ficou de castigo. Não vou assistir televisão nem cinema por um mês, ainda vou ter de apresentar a lição de casa para meus pais. Bem agora que a série do Kung fu ia começar.

É. Acho que para você a coisa foi pior. O ninho já esta pronto.

Daqui uns dias vai ter ovo.

Os dias passaram e as observações se estenderam aos sábados e domingos. Nos domingos combinavam de se encontrar depois da missa.

Pois é. Como você disse. O Pelé vai.

É uma seleção daquelas né!

Já pensou se a gente for tricampeão?

Lá em casa meu pai já comprou um engradado de guaraná pra comemorar.

Os ovos chocaram, eram dois filhotes de gaviões. Os meninos paravam para ver as pequenas asas baterem no alto daquele ninho.

Eu não tenho bicho, você tem dois.

Mas quando quiser brincar com o Chulé e a Xispa é só ir lá em casa.

Mas não é mesma coisa. Minha mãe podia me deixar ter um bicho.

(pausa)

E se a gente pegasse um dos gaviõezinhos?

Cê ta louco? Bicho desse não se pega!

Cê fala isso porque já tem dois.

Anoiteceu. O final de semana chegou e o menino sem bicho não apareceu como de costume. No domingo, na missa eles se encontraram.

Onde você foi?

Eu fui ver como é que se faz para pegar o gaviãozinho. Cê vai comigo?

Eu não acho certo, mas eu vou.

Arranjaram uma corda para subir no pinheiro. Passavam a corda no galho de cima e assim iam subindo. Os gaviões não gostaram e piavam ameaçadoramente. Voavam perto da cabeça dos meninos tentando espantar. Os meninos estavam certos, era a aventura de suas vidas. Nada os impediria. Pegou o filhote, o assalto estava quase completo, agora faltava descer o pinheiro. Os pais do filhote não gostaram nada deste furto, investiram tudo em cima dos meninos, um deles conseguiu bicar a testa de um deles, sangrava. Outra investida e o menino com o filhote na sacola recebeu um arranhão na cabeça. Conseguiram descer. Estavam atrás deles, por mais de um quarteirão os pais ainda os perseguia.

Conseguimos!

Conseguimos. Nossa! Sua testa tá sangrando!

Sua cabeça também!

E agora? Que é que eu vou falar pra minha mãe?

E eu? O Filhote vai pra minha casa.

Mas sua mãe não vai deixar você ficar com o filhotinho.

E o Chulé vai matar ele.

Eu não vou deixar o Chulé ver ele.

Não. Você já tem dois bichos e eu não tenho nenhum e a idéia foi minha.

Tá bom.

Precisamos arranjar uma caixinha pra por ele.

Arranjaram uma pequena caixa de papelão, colocaram palha e o menino levou o filhote para seu quarto. O quarto virou o centro do mundo. Não saia mais. Sua mãe começou a estranhar. Pois seu amigo nunca entrava em casa, e agora os dois não saiam mais do quarto. Um dia a mãe descobriu. Ficou assustada, não gostava de bichos. Principalmente de bichos que ela não conhecia. Não quis o filhote em casa. O pai perguntou como eles conseguiram.

Ah pai! Eu não tenho bicho nenhum, eu só queria ter um bichinho para eu poder cuidar. Meu amigo tem o Chulé e a Xispa e eu não tenho nenhum.

A aventura foi muito perigosa. Sua mãe ficou de cabelo em pé quis colocá-lo de castigo. O pai foi razoável. Aquela aventura merecia ser desfrutada. Conseguiram. Conversou com a mãe e deixaram-no ficar com o passarinho desde que fosse à escola, tirasse boas notas e cuidasse bem do bicho como se fosse o pai.

Você viu? Meu pai me deixou ficar com o gavião!

E como vai ser o nome dele?

Vai ser Teo.

Teo? Por quê?

Porque não?

Esse nome não dá, tem que pensar mais.

O filhote cresceu, virou um belo gaviãozinho. Voava e retornava para seu ninho no quarto do menino. As vezes voava longe mas sempre voltava. A mãe se acostumou. O pai gostava. Por algum tempo o Gaviãozinho ficou famoso e sempre alguns meninos iam visitá-lo. Ele escoltava os meninos todas as vezes que iam para escola e lá ficava esperando até o final da aula. Escoltava os meninos na volta para casa.

O ano passou e tiveram de mudar de escola. Para ir às aulas seus pais contrataram uma perua. Mesmo assim o gaviãozinho os acompanhava. Durante algum tempo foi desse jeito. Um dia o Teo não voltou. O Menino não parava de olhar para o céu.

Filho! Pare de olhar para o alto! Vai cegar você!

Mas cadê o Teo mãe?

Sei lá. Vai ver ele encontrou um gavião mulher e ficou apaixonado.

Não mãe!

A vida é assim. Um dia você também vai encontrar uma menininha de quem você gosta e vai embora.

O menino não se conformava, criou o gavião como se fosse seu filho, sabia tudo o que ele precisava só de olhar para ele. Achava que isso seria um desaforo. Mas, receberia o gavião de qualquer jeito. Passava dia e ele não chegava.

Cara! Eu encontrei o Teo!

Onde?

No guapuruvú perto da figueira da rua de baixo.

Foram, era o Teo mesmo. Estava com outro gavião era uma fêmea. Comiam uma pequena cobra. O menino assobiou forte e alto para que o pássaro ouvisse. Ouviu. Levantou a cabeça para saber de onde vinha. Num vôo raso passou raspando na cabeça dos meninos, como sempre fazia. Deu uma volta e pousou em seu ombro. Foi um adeus. Alçou vôo novamente. Aninhou-se num dos galhos mais altos do guapuruvú.

É. Dessa vez não vai dar para levar um dos filhos dele. Né?

Não. Acho que vou criar uma cobra ou um lagarto.

Até parece que sua mãe vai deixar.

O ÔNIBUS E A GRAVATA



ÔNIBUS E A GRAVATA

Seis e quinze da tarde de um abafado novembro paulistano. Tinha sorte de poucas pessoas estarem no ônibus. Havia lugar até para sentar. Lá fora o trânsito era infernal, uma tempestade ameaçava cair. O final do dia seria uma obra artística do próprio demônio. Trânsito. Chuva. Inundação.

Mariko estava desolada, seu relacionamento acabou. O trabalho não ia bem, seu Chefe um completo idiota. Como ela mesma dizia “um espoliador de mentes babão”. Não admitia as idéias dos outros também não podia ver um rabo de saia. Naquele fatídico dia, Mariko vestia uma minissaia combinando com suas sandálias de saltos. Ressaltavam suas grossas pernas de nissei.

“Nunca mais iria com esse modelito”!

Ele não parava de olhar. Mostrava a língua para ela como se a lambesse. Fez uma proposta maldita. Se ela fosse com ele hoje a um motel, seria promovida. Mariko pensou imediatamente em assédio sexual, mas é muito fácil falar quando acontece com as outras.

Asco, nojo, queria se lavar. Estava enfurecida. Poderia matá-lo?

Pode. Quer.

Lembrou da noite anterior. Brigou definitivamente com seu namorado. Ele era interessante quando não sentia ciúmes ou quando ia bem nas provas, o que não acontecia há um bom tempo. Ontem ele a magoou falando do relógio que seu pai tinha dado.

A gota d’água.

Foi expulso do apartamento. Estava sozinha agora. Sentiu ao mesmo tempo um alívio e um pesar, talvez estivesse acostumada a ele. Seus carinhos iriam fazer falta mais tarde, mas como dizia seu pai:

“homem é que nem ônibus perdeu um tem outro. De vez em quando demora, ainda assim é melhor do que agüentar suas chatices”.

Aceitou a atual condição. Observava as pessoas dentro do ônibus. O motorista olhava para o trânsito como se não houvesse ninguém lá fora. Sua alma voava longe estava na praia grande em Santos. A única praia que freqüentava. Uma velha insistia em mostrar a carteirinha para ele, queria descer do ônibus sem pagar. Não deu a menor consideração, ele simplesmente abriu a porta.

O cobrador estava sonolento tinha dificuldade de manter os olhos abertos. Todos no ônibus estavam presentes apenas corporeamente. Seus pensamentos abundavam qualquer outro lugar do universo, menos onde jaziam suas carnes.

Fantasiavam sobre a loteria e como iam gastar aquele dinheiro se ganhassem. Para aquele humilde servente de pedreiro ainda teria de pegar mais duas conduções. Imaginava uma deliciosa janta que o aguardava. Um adolescente sonhava com as pernas da mulher feia que passava na calçada, vai ver ela não era tão feia assim.

Em seus devaneios, Mariko achava que o ônibus uma poderosa droga alucinógena. Essa droga era potencializada quando estava num congestionamento na sexta feira de tarde. Na condição de usuários desta droga, haviam os viciados, os abstêmios e os reincidentes. Gente que insistia em ficar dentro do ônibus mesmo quando seu ponto estava próximo.

Seis e meia da tarde ia chegar atrasada ao treino de kendô, o que mais gostava de fazer, nem ligava para a separação do namorado ou para o babaca de seu Chefe. O kendô era mais importante. Onde deixava às mágoas, os entreveros, as dores. Mas, estava atrasada. O ônibus insistia em andar lentamente. Impossível ir mais rápido, o trânsito não permitia. Talvez se fosse a pé chegaria lá atrasada, mas não perderia o treino. Levantou do banco puxou a cordinha para descer, o motorista nem olhou.

“Seu motorista abra a porta, por favor".

Demoraram alguns longos segundos para ele assimilar a informação. Na pista do lado um carro importado cortava outros carros, fazendo as mais perigosas manobras na contramão. Num relance Mariko reconhece o motorista infrator.

Era seu Chefe!

Mais a frente ele consegue engarrafar o trânsito de tal maneira que ninguém mais se mexia. Os ônibus ficavram tão colados uns nos outros que se podia andar em cima deles formando uma passarela. Buzinas, xingamentos e para piorar a chuva torrencial desaba. Era como se tudo tivesse acontecido porque o imbecil do seu Chefe resolveu cortar caminho. Ele era o estopim do caos agora infernal.

Lá estava ele todo sorridente para a garota sentada a seu lado. Mostrava todos os seus dotes de macho, ele com suas correntes de ouro e sua gravata Armani, seu carro importado e qualquer imbecil que cruzasse seu caminho haveria de sofrer as conseqüências de sua tão estimada machesa. Mariko olhava a cena. Estava inconformada. Voltou ao lugar onde estava sentada, tirou sua roupa de ginástica da mochila. Era uma camisa de malha preta, calças igualmente preta de lycra e tênis preto. Amarrou seus longos cabelos num coque segurado por duas varetas. Trocou-se ali no ônibus, ninguém percebeu, estavam todos com a mente embotada pela embriagues da droga. Mariko parecia uma ninja vestida daquele jeito. A chuva tinha diminuído, os carros se exprimiam tanto que era impossível andar por entre eles. Segurou no batente da porta deu um impulso e de repente estava no teto do ônibus. Foi andando na passarela formada pelos ônibus. Para passar de um ônibus a outro era preciso só esticar um pouco mais as pernas. No último ônibus viu seu chefe engarrafando o transito, estava logo abaixo dela. Deu um salto e caiu em cima do teto, amassando o carro.

O susto que o Chefe tomou foi enorme, achou que uma árvore tivesse caído em cima dele. A garota ao seu lado não parava de gritar. Ela era uma ingênua menina do nordeste. Veio para São Paulo na clássica ilusão de melhorar de vida. Começou como faxineira no prédio. Era uma menina bonita, logo foi chamada para ser recepcionista, claro que depois de sair várias vezes com o Chefe. Afinal ele até era um homem gentil, pagava o jantar no motel e a deixava no metrô mais próximo de sua casa. Às vezes ela se sentia mal pelo que fazia. Somente mulheres esquerdas tinham este tipo de atividade. Mas de vez em quando as necessidades apertavam. Já enfrentou muita coisa ruim para se dar ao luxo desses preconceitos. Até se sentia gente quando ia a um motel com seu chefe, estava experimentando sabores da sociedade de alto nível. A vida de gente famosa que freqüenta motel, que come comida boa, veste roupas de shopping, perfumes, bijuterias. Ela até tinha alguns sapatos de salto altos. Aproveitou para mudar seu nome para Josy, antes era conhecida como Maria das Dores dos Santos Alcântara. Josy era um nome mais parecido com as artistas de novela.

O Chefe demorou um pouco para se recobrar. Mariko deu outro salto e caiu no capô. Ele a olhou não entendeu nada.

“O que a Mariko estava fazendo no capô do carro”?

Viu a japonesa rir e o dedo médio dela levantado. Sua raiva foi uma convulsão. Como um vulcão que expele lava, aquele homem gordo expelia impropérios a doce japonesa que insistia em mostrar o dedo médio. Ele saiu do carro em fúria, Mariko percebeu o perigo. Escalou rapidamente o ônibus da frente.

Aquele homem a xingava de todas as formas que conhecia. De cima do ônibus ela se sentia segura espicaçava o Chefe, mostrava o dedo.

“Babaca! Cretino! Seu frouxo”!

A raiva dele se transformou em força, esqueceu que estava acima do peso, da barriga saliente exibida com orgulho. Esqueceu da chuva, do fino sapato social. Conseguiu escalar o ônibus. Saiu correndo atrás de Mariko, estava impressionada com a repentina agilidade do Chefe. A perseguição começou, mesmo escorregando ele continuava atrás dela. Nem ligou para o perigo de escorregar e quebrar a espinha.

Ela foi mais ágil estava um ônibus na frente dele. Mariko corria por cima dos ônibus facilmente a agilidade de uma gata. O Chefe escorregava, pisava na barra da calça molhada. A raiva o fazia levantar e continuar a perseguição. Seus olhos explodiam naquele momento seu objetivo era matar a maldita japonesa e iria fazê-lo.

Mariko mantinha o Chefe à distância, mas de repente os ônibus acabaram. Aquele era o último! Um farol mal sincronizado era responsável pelo congestionamento e agora estava aberto.

O Chefe deu um salto inacreditável para seu tamanho levou um tombo, mas conseguiu segurar numa das escotilhas do teto. O ônibus começou a andar, virou a esquina e ganhou velocidade com os dois em cima. Mariko estava encurralada seu Chefe estava babando de satisfação.

“Vou quebrar seu lindo pescocinho. Japonesa do Caralho”!

Pescoço que muito cobiçou.

Ela se agachou segurando uma escotilha de teto. Estava sem saída. Uma guinada brusca fez o Chefe escorregar para o lado do ônibus. Num relance conseguiu agarrar o calcanhar de Mariko que segurou com todas as suas forças a janela da escotilha. O ônibus não parava. Ele estava insano se apoiou na quina do teto segurou a perna dela. Mariko chutava a cara dele, ele não desistia.

Estava assustada. Tinha de se livrar dele se não ela ia cair junto.

Gritou de desespero!

O motorista se assuntou e num súbito ato freou.

Ela se agarrou onde pode. A freada foi mais forte. Foi jogada no meio da rua. Conseguiu cair em pé amortecendo a queda com vários rolamentos.

Tinha alguns ralados, mas estava inteira. Olhou ao redor procurando seu chefe viu uma cena de terror.

A gravata enroscou numa fenda no teto, estava pendurado. Seus olhos esbugalhados mostravam a violência da cena, se enforcou com uma falsa gravata “Armani”. Sentiu um horror imediato.

Era seu Chefe quem havia morrido. Ela estava inteira. Deu de ombros

A chuva voltou a cair forte, ainda estava em tempo de chegar ao seu treino de kendô. Foi atravessar a rua, farois altos e buzinas. Um repentino baque.

Estes sons foram se tornando mais altos até se transformarem em buzinas sentiu uma forte brecada e um dor no seu pescoço que estava sustentando sua cabeça caída. Ouviu alguns xingamentos.

Estava no ônibus tinha sonhado tudo aquilo. Mais uma vez a poderosa droga foi mais forte que ela. Outra forte brecada e o motorista não parava de xingar o carro que lhe cortou a passagem e agora, interrompeu o trânsito. Marico deu uma olhadela pela janela e reconheceu o carro importado. Era seu Chefe. Talvez tal droga tenha lhe permitido uma premonição. Trocou de roupa, com um chute abriu a porta do ônibus e subiu no teto...

A Franciscana

A Franciscana

Sabe quando parece que nunca iria acontecer com você? Aí vem a sutileza, vem o acaso e muda tudo o que você planejou? Você acaba caindo nas malhas do destino. Quando se está mais desatento aparece o maldito detalhe e quebra sua perna.

Vou lhe contar como vim parar aqui. Um corriqueiro dia de trabalho. Um típico fim de tarde. Uma pitoresca estação de metrô em final de expediente. Este fato me mudou. Eu não mais me reconhecia. Imagine um sujeito pacato ter feito isso! Nunca pensaria em subir prédios, brigar com valentões, ir parar na cadeia. Eu me desconhecia, mas como me conhecer de novo? Só se aceitasse o meu destino. Estou aqui por isso. Aceitei meu carma.

Relacionamentos? Não pensava neles há muito tempo e nem queria pensar, depois do desastre chamado Cíntia a minha vida mudou muito. Antes, tudo era simples. Era um solteiro convicto. Aí Cíntia apareceu. Foram três anos intensos de convivência. Dormindo junto, comendo juntos e no fim cada um estava disposto a devorar o coração do outro. Um verdadeiro desastre. Pensei em virar clérigo. A vida celibatária me era interessante. O celibato era uma trégua na batalha que meu coração acabara de perder.

Sempre gostei do esoterismo das ciências ocultas. Quem sabe sem Cíntia nem outra mulher por perto eu poderia me dedicar a estas fascinantes ciências. Foram alguns dias com os Hare Khrshnas. Outros tantos com os candomblecistas poucos minutos com os evangélicos. Ao final desta maratona descobri uma estafa. Nada preencheu o vazio deixado por Cíntia. Nada explicava as amarguras sofridas durante aquele visceral relacionamento.

Estaria melhor quando voltasse ao meu trabalho. Meu antigo escritório de arquitetura chamava. Voltei � vida original. Sem a Cíntia e muito menos mulher alguma me atazanando. Desde então havia dois anos sem nenhuma fêmea. Um solteiro convicto. Dois anos na mais completa solidão sexual dois anos sem as perturbações e inconveniências femininas. É claro as tentações me assolavam, pensava ser você o autor destas tentações. No entanto me sentia muito forte quando dizia não a elas. Eu era celibatário sem a necessidade de me tornar clérigo, Santo Agostinho ficaria com inveja. Estava satisfeito comigo havia me tornado uma pessoa melhor por vencer todas as chagas que Cíntia me dera.

Sempre vinculei músicas ao meu estado de espirito. Na época de Cíntia a “Sagração da Primavera” de Stravinsky era o tema constante, com aqueles acordes caóticos. Quando ficava de saco cheio dela escutava músicas sertanejas. As piores possíveis as mais bregas as reais dores-de-cotovelo. O ‘’Samba do Grande Amor” do Chico Buarque foi a trilha sonora final. A vida de Nelson Rodrigues dentre outros livros dele, os quais diziam muito sobre a alma feminina eram os meus livros de cabeceira. Mas agora tudo era passado.

Poderia olhar para qualquer mulher e desprezá-la imediatamente simplesmente porque eu não precisava delas. Eu era um homem completo sem a necessidade de uma cara metade, dos carinhos ou das delicadezas femininas. Antes de você duvidar da minha masculinidade. Eu me sentia como o super-homem de Nietsche. Bernard Shaw sempre pregou: “o homem pelo que o homem é sem a necessidade de outra para ser feliz”.

Entretanto nunca se deve duvidar da Vida se isso acontecer ela vai te passar a perna como Cíntia fez como todas as mulheres fazem. É impressionante a similaridade entre as mulheres e a Vida. Devem ser energias parecidas afinal é a mulher que dá a vida, assim pensavam os antigos. Eles estavam muito certos.

Neste dia, neste corriqueiro dia observei no metrô várias mulheres. Às vezes uma ou outra olhava com olhares de curiosidade eu retribuía com olhares de desdém. Até ver um grupo de freiras, eram quatro. Pensei: estas mulheres jamais apelariam para as aparências. Mesmo porque elas eram bem feias para os meus severos padrões de beleza. São as mulheres mais inofensivas do mundo. Como arquiteto deveria saber, a beleza é conceitual o que importa é a harmonia das formas. Este foi o primeiro pensamento a vir na cabeça. Minha primeira falha. Foi onde baixei a guarda. Procurei algo de interessante nelas, uma era baixinha e gordinha bem alegre. Falava expansivamente, tinha os olhos muito furtivos. Outras duas eram magras usavam óculos, aliás, todas usavam óculos grossos. Talvez óculos grossos seja parte do uniforme delas. Essas duas insistiam em arcar os ombros numa clara demonstração de submissão a qualquer coisa. Quando sorriam tapavam a boca com as duas mãos como se a alegria fosse um pecado. Elas poderiam muito bem se passar pelos ridículos ‘nerds’ lá da faculdade de engenharia.

A quarta freira me chamou mais a atenção, ela era baixa mas não era gorda. Usava sandálias de couro tipo franciscano mostrava um pequenino pé muito feminino. A pele muito clara e seus cabelos apesar de estarem cobertos pelo véu uma mecha de fios castanhos claro apareciam. Esta sutil diferença chamou minha atenção. Fiz uma análise mais crítica, notei seus olhos igualmente claros. Seus dentes perfeitos apareciam em um sorriso largo. Talvez não tivesse medo de pecar. Seus ombros não eram arcados o que achei um fenômeno. Mostrava uma certa petulância para uma freira. Ao final da análise fiquei pasmado. Ela era linda! Sorriso lindo! Um desperdício de mulher. Mas desperdício? Para quem? Eu com as minhas novas atitudes para com as mulheres, não me permitia tomar certas liberdades de celibatário-não-clérigo. Entretanto numa freira eu poderia confiar, elas nunca tomariam atitudes típicas de mulheres. Afinal elas são casadas com Deus por isso usam aliança. Naquele momento um sentimento de inveja me apossou. Imagine o absurdo! A inveja de Deus. Inveja por estar casado com uma mulher tão bonita e ter a certeza dela lhe dar seu total amor e devoção.

O metrô parou e as freiras saíram. Meus pensamentos me levaram a Lua. Perdi a estação onde desceria. Estava sozinho no vagão. Vi um livro preto caído no chão. Abri, era uma bíblia. Haviam dois nomes escritos um era Eleonora de Ávila Serpes e o outro era Celina de Fátima Aparecida. Deveria ser o nome original e o nome de guerra que elas usam quando são confirmadas. Havia um nome de colégio, era o Sacre Coer. Levei a bíblia para casa. Fiquei pensando naquela freirinha a noite inteira. Havia tempo que não tocava numa bíblia. Folheei e li algo a respeito da salvação de Maria Madalena. Lembrei do filme ‘A última tentação de Cristo’ quando ela realmente tentou Cristo. No dia seguinte decidi devolver o livro. Afinal imagine uma freira sem bíblia. Era como se fosse um médico sem estetoscópio.

Entrei no colégio e uma freira mais graduada me atendeu. Contei que vi um grupo de freiras no metrô e uma delas deixou cair a bíblia, “vim entregar”. Achei estar fazendo uma boa ação e quem sabe ver a Freirinha. A freira graduada me olhou com um certo desconfio. Pegou a bíblia “pode deixar. Irei entregar ao devido dono”. Me indicou a saída e desconsolado sem nenhuma desculpa tive de sair. Olhei uma vez mais para o colégio, “assim seja”, me virei rapidamente e dei de encontro com a Freirinha, ela derrubou tudo que carregava. Pedi mil desculpas recolhi todas aquelas infinidades de livros e cadernos. Olhou para mim com um ar de freira, mas depois pecou, sorrindo seus lindos dentes. Contei sobre a bíblia perdida. Era da companheira de quarto. Estranhamente conversamos muito e o tempo passou ali na frente do colégio como se fossem cinco minutos.

Não foi num bar nem numa danceteria ou qualquer lugar típico de paquera, mesmo porque em teoria eu não estava paquerando uma freira. Idéia absurda! Apesar da beleza escondida atrás de tantos véus, roupas e anáguas.

Ela se chamava Maria Rita somente Maria Rita. Nada daqueles nomes elaborados. Ela era simplesmente a Maria Rita. Não quis dizer seu nome original. Fiquei pensando nela durante toda a semana ela não saia da minha cabeça. Fui tentar vê-la novamente. Arranjei uma desculpa dizendo ser o arquiteto da prefeitura tinha de vistoriar todos os aposentos a procura de rachaduras, infiltrações ou mudança na arquitetura do prédio. Infelizmente ela estava na clausura. Insisti em vistoriar aquele aposento, mas as freiras fizeram de tudo para eu não entrar lá. Ameacei intervir com bombeiros e polícia quando um estranho padre vestido de batina preta com uma cruz de malta vermelha no peito esquerdo me impediu de entrar na clausura. Olhei para a cara do sujeito e com dedo em riste o ameacei por impedir o cumprimento de ordens federais de segurança. Ele quase quebrou meu dedo. Notei que o estranho padre não tinha cara de padre, seu rosto tinha feições duras. Rosto firme, marcado, de alguém que já tomou muita pancada e não tem medo de leis federais. Depois dele quase ter quebrado meu dedo fiquei quieto de dor.

Maria Rita saiu da clausura com a confusão formada. Falando em latim ela repreendeu o dito padre e me soltou. Ela pediu desculpas perguntou se eu ainda queria ver a clausura. Respondi que não, pois já tinha atingido meu objetivo de vê-la. Falei isto somente para ela. Rita me acompanhou para fora do colégio onde ficamos conversando, perguntei se era pecado eu convidá-la para um jantar, ‘desde que não fosse a restaurantes caros’. Seria em minha casa, ela disse ‘as seis horas da tarde’. Tudo bem, mas porque tão cedo? ‘ Porque freiras dormem cedo’. Resposta obvia.

Naquela noite elocubrei sobre tudo o que envolve uma religião. Eu nunca fui religioso apesar de ser um curioso das ciências ocultas. Nunca acreditei muito em deus e muito menos no diabo. Mesmo assim certos preconceitos vinham a minha mente, talvez fossem frutos da nossa criação crista. Aquelas histórias de padre e freiras não treparem e se treparem o diabo vai comer seus corações com shoyu, erva forte e pimenta malagueta. Vai deixar suas almas lamentarem no inferno até o final de toda eternidade. Para mim era tudo uma baboseira que eu evitava falar. Não via sentido neste assunto.

Preparei duas trutas com alcaparras na manteiga, para acompanhar arroz branco ao estilo japonês e legumes sautê. De sobremesa, uma salada de frutas com chantili. Às seis horas em ponto, Rita invadia meu casto lar. Vestia o tradicional uniforme de freira, dispensando apenas o véu mostrando seus cabelos curtos que a tornava muito mais charmosa. Estava sem nenhuma pintura muito diferente das mulheres que conheci. Era como se a visse nua em pelo. Gostei muito! Longe do convento e das freiras, ela era muito sensual. Fiquei muito intrigado por ver essas qualidades numa freira.

Jantamos, a conversa foi se desenrolando livremente parecia haver uma correspondência de confiança. Ela me contou toda sua vida, o porquê de ser freira. Ela dizia fazer parte de uma ala progressista da igreja, mas o que mais me chamou a atenção foi uma teoria dela sobre as próprias mulheres. Ela dizia existir tipos padrões de mulheres. Por exemplo, todas as madalenas são iguais ao arquétipo da madalena. Todas as Amélias são iguais ao arquétipo da Amélia da música de Noel Rosa. Os arquétipos dos nomes ditam a personalidade da pessoa. No caso das Marias todas elas tem como arquétipo Mãe Maria. ‘Você é igual � Rita da música do Chico Buarque’? Respondeu-me com os olhos de esgueio, ‘claro que não, eu sou freira’! Acho que ela mentiu. O jantar estava muito bom ela era uma ótima companhia. Saiu de casa as oito da noite estava atrasada.

Eu estava apaixonado. Fui contar o acontecido para meu sócio e melhor amigo. O Genésio. O Genê, como a gente costumava chamar era um sujeito calmo, tinha quatro filhos. Um pai exemplar apesar da mãe de seu filhos o ter trocado por um rapaz mais novo e rico. Genê na época ficou muito mal. Passou a beber e freqüentar casas de reputação duvidosa, mas tudo se resolveu. Ele era um sujeito muito centrado para uma mulher acabar com ele. Manteve a guarda das crianças. Não demorou muito até alguma mulher com um pouco mais de senso ver as extremas qualidades do Genésio. Virou outra pessoa depois de conhecer Margarida. Esqueceu sua ex-mulher definitivamente. Se existe alguém com sorte neste mundo este alguém é o Genésio. Às vezes tinha um pouco de inveja dele por causa da Margarida. Contei. Primeiro ele me achou definitivamente louco depois deu o número do telefone do seu ex-psiquiatra. Não freqüentava mais desde que Margarida apareceu em sua vida. Perguntei: ‘desde quando um psiquiatra consegue substituir o amor? Nenhum psiquiatra conseguiu sequer defini-lo’. Margarida queria conhecer Rita para ver se ela passava em seu crivo. Ficaram preocupados nem a Cintia tinha me deixado tão louco de paixão. Genê pediu para tomar cuidado, ‘essa Rita parece mais uma bruxa do que uma freira’. Mas qual a diferença entre a bruxa e uma freira?

Com o decorrer do tempo sempre achava uma maneira de encontrar Rita. Eu me disfarçava de jardineiro para cuidar do jardim do colégio. Ela estranhou quando me viu, era minha contribuição humanitária, respondi. A Madre não gostou quando remodelei totalmente o jardim dando um ar mais moderno. Fui despedido. A Madre já me conhecia então só poderia ser sorrateiramente como um ninja que adentra o covil dos assassinos. Rita levou um susto quando me viu vestido de ninja, quase gritou. Novamente ela estranhava muito as minhas aparições repentinas ou como mendigo ou na espreita quando ela saia para trabalhar fora do convento. Nas primeiras vezes ela tentava fugir de mim a qualquer custo. Senti-me igualzinho a você. Mas nós somos humanos e como humanos precisamos aprender a lidar com nossos sentimentos, sejam eles considerados impróprios para certas pessoas, sejam eles absurdos para outras.

O que Rita sentia por mim era tão forte quanto toda a sua devoção pela Igreja. Sempre que me via, ficava visivelmente ruborizada. Nunca tive tanta certeza de um sentimento. Ela chegou a pedir para nunca mais a procurar. Isto era impossível. ‘Impossível a Terra ficar sem a Lua para poder iluminá-la. Impossível o mar ficar sem as ondas, sem o verde dos seus olhos, sem o quente das suas mãos para senti-la. Não é possível viver sem a brisa dos ventos, sem o cheiro da grama, ficar sem você nem ao menos num piscar d’olhos’. Os olhos dela já eram meus, e os meus os dela. Se existem outras dimensões no espaço e no tempo, nelas nosso ato já havia sido consumado. Ela sabia disso. Porque continuar hesitando? Afinal a definição do amor é tão ampla quanto � de deus. Eu tinha absoluta certeza do meu sentimento para com Rita. Talvez fosse isto que a fez jogar tudo para o alto. Meu sentimento era tão verdadeiro quanto o ar que ela respirava.

Nosso primeiro beijo foi numa segunda-feira as quatro da tarde, aos pés de São Tomé quando ninguém estava na missa. A igreja estava vazia, nem padre havia. Três dias depois declarei meu amor incondicional a ela. Não precisava ter feito isto estava nos meus olhos. Joguei no lixo tudo o que pensava e acreditava � respeito de mim e das mulheres de Bernard Shaw daquelas teorizações sobre sentimentos. Acho que nunca tinha amado alguém até então. Queimei os livros de Nelson Rodrigues, rasguei os livros de Flaubert. Queria ela mais do que tudo, mesmo se a ira de Deus, como marido traído caísse sobre mim. O importante era a Rita. Um mês depois nosso amor venceu. Ela abdicaria das funções sacerdotais. Veio morar comigo estávamos no céu. Encontrei a mulher de minha vida. Tinha poucos pertences. Outras que vieram traziam todo o armário, gato, cachorro, papagaio. A Rita trouxe uma imagem de São Francisco que eu havia dado. Poucas roupas para uma mulher. Uns discos de canto gregoriano e música indiana. Ela adorou meu cd de piano da ‘Cleur de lune’ do Debussy. Ouvia constantemente. Adorou a estátua de jaburú que eu fiz. Decorou o apartamento dando um ar mais feminino.

Sete meses durou minha plena felicidade. Sete meses de um autêntico nirvana. Sete meses de puro amor. Talvez esses fossem os sete meses que Deus estivesse fora para amar as tantas outras esposas e se esqueceu da mais bela dentre elas. Todos os dias, todas as horas nós estávamos inteiramente entregues um ao outro. Foi quando Deus resolveu reivindicar seus direitos de marido traído. Uma junta de freiras sempre tentava de todas as maneiras demovê-la da idéia de deixar o sacerdócio. Um dia a madre superiora a encontrou numa esquina conversaram por toda � tarde. Neste dia ela tinha chegado em casa muito estranha, apreensiva, furtiva, fria. Estranhei muito. No dia seguinte ela me deixou. Meu amor! Meu grande amor � mulher da minha vida me deixou. Deixou-me por outro que nada mais era do que o próprio Deus!

Como na música do Chico, ela levou meu sorriso, o sorriso dela e um abraço. Levou a imagem de São Francisco, um álbum de fotos de nós dois, minha escultura do jaburú. Uma foto minha de quando eu era menininho. Levou um bolo de notas. Nem a minha viola caipira dado por famoso violeiro goiano, ela me deixou. Maldito seja o Chico Buarque mil vezes por ter feito esta música ‘A Rita’. Agora toda vez que a ouço lembro da minha Freira.

Como amante renegado fui atrás dela, invadi o convento onde ela estava. Não me deixaram vê-la de maneira nenhuma ameaçando chamarem a polícia. Saí do prédio e gritei para ela aparecer. Minhas lágrimas queimavam em meu rosto. Será loucura? Dizem que a loucura é irmã do amor. A polícia chegou fui preso. Horas depois solto. Voltei para casa, lá encontrei o estranho padre de batina preta com uma cruz de malta em seu peito. A Rita tinha me avisado sobre ele. Fazia parte de uma congregação chamada ‘Cruz de Malta’. Eram eunucos educados nas mais mortais artes da guerra. Especializados em matar, eram os soldados da Igreja. Rita me contou que nos conventos mais importantes existe um soldado deste para guardar a Igreja. Foi o momento de ver seus frios olhos e uma fina dor invadiu meu ventre. Logo depois eu vi limpar um punhal em minha camisa. Eu estava morto. Apesar do mais puro amor que senti por Maria Rita de nada me valeu. Deus como marido traído me mandou para o inferno.

Foi assim que tudo aconteceu Lúcifer. O que não se faz por amor? Você bem sabe. Se não, não estaria aqui, com seu rabo de espeto e essas ridículas patas de bode.

“Há! Há! Há! Não me compare a você seu idiota! Não era você que não acreditava em Deus? Que duvidava da ira de Deus? Foi mexer com o camarada se danou!!! Há! Há! Há! Ateu do caralho. Agora você vai é penar! Há! Há! Há!”

Pode dar risada Seu Lúcifer, mas eu a tive e queimar no inferno não se compara a dor que passei quando ela se foi. Portanto podemos disputar quem vai ser o novo dono daqui.

E aqui começa a guerra no inferno.

...num futuro próximo...

...num futuro próximo...
Neste futuro próximo a falta de água se contrapõe as cidades costeiras que foram inundadas devido ao aquecimento global. Numa sociedade onde a energia é o bem mais valioso, qualquer tipo de energia é bem vinda. Os países desenvolvidos utilizam largamente a energia nuclear, mas impedem os países pobres de utilizarem esta matriz energética, pois temem o emprego militar da tecnologia. Depois das guerras dos terroristas onde alguns países foram alvos de pequenas bombas atômicas. Qualquer país que ousasse mexer com a energia nuclear seria passível de represálias militares por parte dos países que formaram o Pacto Nuclear.
Os países pobres dependem de combustíveis alternativos, o petróleo é cada vez mais escasso e atualmente os combustíveis utilizados são o etanol e o biodiesel. Do açúcar se faz etanol e de óleos e gorduras se faz o biodiesel. Assim, o alimento produzido, tanto pode virar comida quanto matéria prima para refino.
Embora exista essa disputa de alimento entre humanos e máquinas, a superpopulação mundial é cada vez mais terrível gerando uma realidade macabra, principalmente nos países mais pobres e superpopulosos onde as guerras aparecem do nada, como epidemias, matando milhões de pessoas.
Todas as pessoas possuem um percentual de gordura no corpo, por mais raquítico que possa ser o individuo essa gordura existe em suas células. Através de um composto químico, foi possível transformar os carboidratos encontrados no corpo humano, em ácidos graxos, aumentando a porcentagem de gordura corpórea. Nos países pobres há pouca comida disponível e muita gente. Pouca energia disponível e muita gente. As guerras epidêmicas, como chamam os cientistas sociais desta atualidade, são geradas por qualquer motivo, social, religioso ou territorial. Matam muita gente. Os cadáveres gerados por essas guerras são reciclados e refinados obtendo um ótimo biodiesel que é utilizado nas usinas de força destes países pobres ou exportado para outros países que ainda utilizam motores a combustão.
Neste futuro, existem refinadoras de gordura ambulantes. Elas geralmente ficam atrás das linhas de combate destas guerras, esperando os cadáveres. Quando se formam campos de refugiados, os refinadores utilizam gases a base deste composto químico catalítico, para aniquilar os refugiados e assim terem matéria prima a vontade para o refino do biodiesel.
As guerras epidêmicas têm simplesmente o intuito de fornecer matéria prima para o refino de biodiesel. Entretanto, geram renda para o mundo inteiro, impulsionam a indústria armamentista e a indústria de energia, bem como faz uma regulação da população mundial. A ONU faz vistas grossas. Diz que são guerras tribais...
Neste futuro o Brasil se mantém como país em pleno desenvolvimento e relativamente rico, pois detém os royalities da tecnologia do biodiesel.

Oh!!! Mundanús!!!

OH!! MUNDANUS!!!
"Oh Mundanus!" Com já diria nosso caro colega de classe, Sir Edward Stevensons. Era o que dizia dos atributos das putas quando adentrava aos prostíbulos chics, nos idos dos anos 50.
Sir Edward Stevensons nada mais era do que o alter ego do romancista de botequim, José Alfonso da Cruz. Quando lá pelas altas madrugadas, ao trago da enésima pinga, seus colegas o chamavam pelo verdadeiro apelido "o Zé Cruz...cala a boca!". Ninguém o agüentava mais, seus discursos insólitos e pedantes, cheio de arabescos, enchia o saco! Somente Maria Cristina das Almas, mais conhecida como Crisdasalmas, famosa pela volumosa bunda é que lhe tinha ouvidos. Seu cú era, ao final da noitada, muito desejoso por aqueles que sobreviveram a esbórnia alcóolica. Mas Crisdasalmas só tinha olhos para o Zé Cruz e ele só a notava alguns segundos antes de sucumbir a bebedeira.
No dia seguinte, Zé Cruz acordava e ia trabalhar, era arquivista da Assembléia Jurídica. Trançava os pés da ressaca mal curada. Num desses dias, Crisdasalmas o seguiu, sentia que tinha de fazer aquilo. Zé Cruz não mais suportando vomitou até seus bílis aparecerem verde garrafa. Estava prestes a desmaiar quando Crisdasalmas veio em seu socorro. Ela era uma mulher forte e o sustentou até seus aposentos num cortiço próximo. Lá, o banhou, o tratou.
Quando acordou não reconhecia o lugar, mas reconhecia a bunda que estava dormindo ao seu lado. Pelo menos isto a bebedeira não levou. A doce lembrança do traseiro volumoso e voluptuoso de Crisdasalmas. Tratou de se aprochegar. Percebeu que era tão quente e gostosa como realmente parecia. Sentiu que não poderia mais dormir sem estar aconchegado naquela bunda. Foi então que os dias da esbórnia se acabaram, mas nem tanto assim.
Na casa nova do casal, fazia-se jogatinas de todo o tipo. Mais tarde abriram um pequeno cassino. O suficiente para poderem levar a vida. Nunca mais "Mundanus", nunca mais puta.

PAURA

...o breu desgraçado! Mal conseguia distinguir o asfalto do acostamento. Era uma noite de céu encoberto. Deveria estar com medo mas como dizem, o que não se vê não se sente. Lembrei de meu avô dizendo “só bestas como você para acreditar em coisas que só os olhos vêem”. Senti sua presença ao meu lado, “devia dar ouvidos ao seu coração”.
De imediato meu coração disparou, um frio súbito subiu minha espinha. Algo de muito ruim estava para acontecer, não sabia o quê, algo de muito perigoso. Parei no meio da estrada e tentei ver o que poderia ser.
Nada. Escutar? Somente os grilos e vento batendo no mato.
Cheiro? O perfume do ar da noite.
Mas meu coração saltava avisando que tinha problemas chegando, “maldito carro quebrado! Merda!”.
Meu avô de novo, “é melhor se acalmar pra pelo menos não mijar nas calças, o resto deixa que seu coração resolva”.
Desatei a correr, pude perceber uma árvore bem copada na beira do acostamento. Subi. Achei uns galhos que me deixariam bem escondido e até confortável.
Algum tempo depois percebi um barulho de motor se aproximando. Era um carro de faróis apagados e uma lanterna vasculhava o acostamento. Pararam perto da árvore, pude ouvi-los:
“Será que o desgraçado conseguiu fugir”?

“Vamo dá uns tiros no mato só pra ter certeza”.

“Não. O cara conseguiu fugir. O santo dele foi mais forte. Não tem jeito.”
Foram embora.

Fiquei tão apavorado que adormeci agarrado aos galhos. Sonhei com meu avô, dizia que estava se esforçando para que nada de mal me acontecesse, mas que deveria lembrar das coisas que ele me ensinou.
“Que coisas?”. Perguntei.
“Aquelas que te permitiram sobreviver a este contratempo.”
Acordei com um cocô de passarinho escorrendo no meu rosto. Nem percebi o sol nascer, mas estava com uma estranha tonalidade. Dizem que quando se tem contato com os espíritos o dia seguinte fica de uma cor diferente.
Fui pra casa.
  • Posted: Tuesday, 7 August 2007 13:50:39 GMT
  • In: Elocubrações
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O VESTIDO

O Vestido

Janice foi convidada para ser madrinha de casamento de sua afilhada Sandra. Foi na melhor loja do shopping. Durval, o marido, tinha feito um bom contrato de prestação de serviço para um político da cidade e com isso ela pode se empetecar a vontade para o casamento. Comprou um vestido longo azul claro. Simples mas muito elegante. Janice tinha bom gosto pelas coisas. Foi educada em colégio interno de freiras. Havia feito faculdade de letras numa universidade católica. As próprias freiras sustentaram sua graduação, foi uma aluna exemplar no internato. Formou-se em latim antigo, infelizmente ninguém a avisou que esta língua era morta.

Conheceu Durval no final da faculdade. Foi amor á primeira vista. Ele estudava engenharia elétrica. Formavam o casal perfeito a exatas e a humanas. Janice foi convidada a continuar na universidade, mas abdicou em favor de seus filhos. Foram quatro no total, todos formados. No dia do casamento de Sandra ficou cinco horas no cabeleireiro foi serviço completo, pés, mãos, cabelos, limpeza de pele, massagens. Tudo isso valeu a pena. Quando Durval a viu com seu vestido recém comprado, saltou os olhos como um lobo que vislumbra uma bela cabrita. Ela com um sorriso maroto tinha entendido tudo. Haveria duas festas hoje.

Chegaram á igreja com o novo carro importado de Durval em grande estilo. Trataram de tomar seus devidos lugares de padrinhos ao lado esquerdo da noiva. A igreja estava cheia. Iria ser um casamento epopéico. Meses depois o casamento ainda seria tema de assunto em cabeleireiros e rodas de madames. O ambiente estava preparado para receber a noiva. Dez minutos depois soam as trombetas, a marcha nupcial começa a tocar, pétalas de rosas caem do balcão. Mulheres em prantos ao ver a beleza da noiva. Seu vestido era de um branco virginal, com uma longa cauda e um penteado alto aparentando uma maior estatura.

O padre deu início á cerimônia. Janice estranhou que as mulheres da platéia a olhavam e algumas davam risadinhas irônicas. Sua amiga Elenice apontou discretamente o outro lado, dos padrinhos do noivo.

Tragédia! Desastre! A madrinha, prima do noivo estava com um vestido idêntico ao dela. Janice quase desfaleceu. Como alguém pode ousar vestir a mesma roupa que a dela? Estava vermelha era evidente sua consternação. Durval também percebeu a coincidência e foi solidário a sua mulher apesar da voluptuosidade da prima do noivo. Era notório que o vestido caia muito melhor na prima do noivo do que em Janice. O padre fez o favor de estender a missa ao máximo, era amigo da família.

O sermão dizia a respeito das boas amizades do quão era bom se sentir perto das pessoas que compreendem seus medos e alegrias. Janice mal ouviu o sim, qualquer esquina ou buraco serviria para se esconder deste escândalo. O céu caiu sobre sua cabeça. Ela seria motivo de chacota de toda a alta sociedade. Afinal batalhou tanto para conseguir chegar a este status e por causa de uma sirigaita foi destronada de um minuto para outro. Foram jantares, festas, aparições públicas. Tudo em vão. Amanhã retornaria ao ostracismo social.

Os noivos estavam casados. Janice tratou de sair da vista de todos, mas aquela fila de comprimentos era um tumulto, não tinha como fugir. Tudo isto a fez ponderar qual seria a gafe maior sair á francesa de um casamento em que se é personagem principal ou encarar as terríveis coincidências. “Mas que diabos!” – Ela pensava.

“Porque esta lambisgóia foi escolher o mesmo vestido que o meu?” – Chegou a hora dos comprimentos Janice mal sorria, o casamento de sua sobrinha preferida foi um desastre. Comprimentou Sandra com dois beijos e um abraço foi quando viu a madrinha do noivo logo atrás. Janice baixou a cabeça, foi saindo como um cachorro com o rabo entre as pernas mas a prima lhe interrompeu o caminho:

“Meu Deus! Mas você esta com o mesmo vestido que eu! Você realmente tem um ótimo gosto!” – Falou em alto e bom som para todos ali na frente da igreja ouvirem.

“Mulher desgraçada, piranha, vagabunda!” – Seus pensamentos quase saíram pela boca, seus olhos ferviam. Ameaçou um coice na canela dela. Durval que a conhecia muito bem agarrou seu braço evitando um mal maior e a compostura pairou sobre suas cabeças novamente.

Foram apresentadas as respectivas madrinhas, a prima se chamava Celina uma mulher alta de cabelos pretos e lisos, pequenos e incisivos olhos castanhos. Sua boca só tinha lábios, suas pernas não acabavam mais. Extremamente simpática mais do que o necessário pensou Janice. Os noivos iriam receber os comprimentos em um famoso buffet da cidade.

Celina estava sem condução para a festa. Pediu carona a alguém e logo vários marmanjos se dispuseram a levá-la inclusive o Durval. Celina ficou encantada com o casal e aceitou.

“Nossa! Mas vocês dois formam um casal maravilhoso, acho mística esta linda coincidência dos nossos vestidos. A senhora não acha?” – Os olhos de Janice se encheram de lindas lágrimas de raiva, rezou para que seu marido fosse um psicopata e a matasse. Jogaria seu corpo no rio e tudo estaria bem o tão afamado casamento estaria salvo e não seria alvo de chacotas das fofoqueiras de plantão.

Parecia que aquele pesadelo não teria fim. No salão foram fotografadas juntas, filmadas juntas, até entrevistadas. Celina insistiu em sentar-se à mesa junto com tão belo casal, marmanjos a cortejavam a toda hora. Durante a valsa Janice desabafou com Durval:

“Quero sair desta festa não quero ficar nem mais um minuto. Estou traumatizada com esta situação e você não faz absolutamente nada para me ajudar. Você podia muito bem dar um tiro nesta vagabunda!” – Janice estava visivelmente transtornada.

“Venha cá meu amor vou pegar um uísque para você relaxar. Uma bebida forte vai te ajudar”.

Os dois foram ao garçom mais próximo. Ela nem fez cara feia ao virar o copo cheio. Voltaram para a mesa. Celina estava conversando animadamente com Gisela, uma ex-amiga de Janice. A muito não se falavam desde quando soube que Gisela paquerava Durval as escondidas.

“Belo vestido vocês arranjaram. Compraram juntas?” – Perguntou a peçonhenta amiga.

O jantar era bobó de camarão servindo num prato de porcelana inglesa decorado pelo famoso Chefe de cozinha Lui Martin. Janice pegou o respectivo talher para frutos do mar experimentou a iguaria, fez uma cara de desgosto e num simples gesto jogou todo o bobó de camarão em cima de Gisela.

O que seria um casamento triunfal virou uma briga de boteco de esquina. Janice insana quebrou uma garrafa de vinho, tinha a intenção de enfiar aqueles cacos no rosto de Gisela e da Celina. Durval usou de toda sua força para poder segurar a mulher. Necessitou da ajuda do noivo para separar as briguentas. Celina que era toda Zen, não entendeu o motivo de Janice estar brava com ela:

“Temos tanto em comum! O que foi que eu fiz?” – Com muito custo Durval conseguiu tirar Janice da festa e colocá-la dentro do carro. Na volta para casa Janice não parava de chorar Durval nada falava. Subiram para o apartamento, “vou comprar seu calmante”. Rapidamente tirou o terno e colocou um moletom. Saiu batendo a porta da sala.

Janice viu tudo isso chorando na sala. Levantou foi a seu closet, abriu a porta de espelho e se viu naquele vestido. O choro voltou em revolta, rasgou todo o vestido ficou nua no espelho. Viu seu corpo. Lembrou de como o vestido ficava bonito no corpo da Celina. Estava se sentindo muito mal a pior mulher do mundo, a mais feia, a mais horrorosa. Não conseguia imaginar o porquê de Durval gostar dela? Como ele poderia viver com um estrupício como ela? Ela era uma farsa como mulher, um arremedo de pessoa. Nem escolher um vestido decente conseguia escolher. A vida social que construíram juntos foi atirada na privada, Tudo porque não soube escolher um vestido decente.

Olhou para a porta de vidro de sua sacada. Eram quinze andares. O porteiro acordou com um repentino baque. Havia um corpo estendido na calçada.

Durval virou na esquina de sua rua, voltava da farmácia. Deu de cara com carros de polícia e ambulância. Deu meia volta no carro, entrou em uma viela perto de seu prédio. Parou no primeiro orelhão que encontrou. Discou rapidamente os números, não atendia. Discou de novo, atendeu:

“Celina? É o Durval. Nosso plano foi melhor do que esperávamos. Não vamos precisar mais dos calmantes. O vestido mais a baixa hormonal foram mais eficazes do que o calmante. Te espero daqui a quinze dias em Cancun. Beijos meu amor”.

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